Thursday, October 5, 2006

Palha e Fumo

 

Um robusto tijolo assentado próximo ao batente da porta, assoviou-me

 um silvo embriagado a pretexto de aprumar prosa.

puxei um banquinho de carpintaria, tirei do bolso o fumo,

e estiquei a palha com certa velhacaria

resmungou para si qualquer coisa difícil de entender, um melindre de dá pena,

 fitei-o de soslaio e aquietei o fumo no leito da palha

- O Senhor teria fogo

 Limpou a garganta com indiferença e rara sutileza

mantive-me cabisbaixo, lendo entre o fumo dormente e os frisos da palha

o eco de ininteligível resmungar

senti-o, como se tivesse-me montado aos ombros,

incapaz de outra reação sacudi-os

e ri com estertor…

O homenzarrão se aproximou, esgueirou-se entre  a gargalhada,

 apoiou-se em meu peito

respirou profunda e serenamente absorvendo o hálito do fumo adormecido.

meu coração batia em descompasso, meus pensamentos cruzaram o cerne da razão 

depostos num búzio…

aconchegou a boca a altura de meu coração,  e sem apressar-se

e como quem recolhe temperos compôs

um poema…

fez-me oboé de sua música, calma e robusta como um jatobá

o fumo rolou preguiçoso sobre a palha, acabou-se num vão entre tacos de madeira de lei.

A criatura girou nos calcanhares após ferir-me no tendão,

Olhei-o atravessar o limiar do batente… levando consigo a palha

entremeada em seus dedos

e um caco de mim em seus olhos de vitral

 

 

 

 

 

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Friday, September 29, 2006

Quar(ar)esma 

 

Gosto de sacudir os lençois

estendê-los no varal, deixá-los quarar

o sol se enroscando todo no imenso varal do mundo

 sempre apanho as lantejoulas que caem

guardo-as num pote de mel para colá-las mais tarde

vejo tudo pelos nós da costura.

Sou um moinho de giros lentos…

trituro grãos dia e noite, incansável, disseram-me que Deus tudo permeia

prucuro-O em cada grão, comprimo-os com mãos de avó, ou de criança em prece

aperto o tubo de pasta de dente até o fim. 

amo amiúde

não sei amar com vastidão, com filosofia, sapiência de doutor…

amo a coceira que não alcanço, e a porcelana das quais são feitos os santos de quermece

 amo a música singela e cabocla do abrir de porta

- Imagina! Disse-me o Capiroto.

Pois ele encontro em todo grão, tecemos prosa longa cascando amendoim

gostamos mesmo é de cascar amendoins juntos, o tempo passa que só vendo

- Imagina! Diz-me em cada casca que tira do amendoim, e ri-se o danado

Nos entendemos assim, ele na língua dele eu na minha

quando cascamos, ele casca, eu sacudo os lençois

e estendo-os como se pescasse o Sol 

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Tuesday, September 26, 2006

Em teu  olhar uma fita imaginária

Hoje quis construir gaiolas para os sentimentos
quis domá-los, vesti-los à rigor, colocar fitas em seus gestos embasbacados…
queria-os palpáveis, perfumados, um requinte só… in-ternados na ternura

um sapato luso para passos de balé… coluna em fila indiana… um broto na lapela

Hoje quis ler os sentimentos como se em vitrines
espanados ao desfio, besuntados de um riso anil, engomados a ferro e fogo
desejado como se caísse à perfeição.

Hoje quis lembrar de ti pelas fotografias
nos momentos congelados de tuas retinas o caminho do afeto
senti-me nu, uma noz descoberta… 

Hoje quis um salto mais ornamental, ensaiado infinitas vezes quando fecho os olhos
Se visse a que alturas chego,
capaz de colher das estrelas centelhas de universos ainda não nascidos
 para dentro entre o impulso e o vôo todo me viro

Teço no contra-tempo linho e cordões
amarro com três nós as sete pedrinhas colhidas
semeio vento e silêncio… e a enfeito como minha filha
você me olha, com olhos de erva-doce, e envolve meu coração em uma fita imaginária.

Quis o hoje displicentemente com o amor descontraído

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