Palha e Fumo
Um robusto tijolo assentado próximo ao batente da porta, assoviou-me
um silvo embriagado a pretexto de aprumar prosa.
puxei um banquinho de carpintaria, tirei do bolso o fumo,
e estiquei a palha com certa velhacaria
resmungou para si qualquer coisa difícil de entender, um melindre de dá pena,
fitei-o de soslaio e aquietei o fumo no leito da palha
- O Senhor teria fogo
Limpou a garganta com indiferença e rara sutileza
mantive-me cabisbaixo, lendo entre o fumo dormente e os frisos da palha
o eco de ininteligível resmungar
senti-o, como se tivesse-me montado aos ombros,
incapaz de outra reação sacudi-os
e ri com estertor…
O homenzarrão se aproximou, esgueirou-se entre a gargalhada,
apoiou-se em meu peito
respirou profunda e serenamente absorvendo o hálito do fumo adormecido.
meu coração batia em descompasso, meus pensamentos cruzaram o cerne da razão
depostos num búzio…
aconchegou a boca a altura de meu coração, e sem apressar-se
e como quem recolhe temperos compôs
um poema…
fez-me oboé de sua música, calma e robusta como um jatobá
o fumo rolou preguiçoso sobre a palha, acabou-se num vão entre tacos de madeira de lei.
A criatura girou nos calcanhares após ferir-me no tendão,
Olhei-o atravessar o limiar do batente… levando consigo a palha
entremeada em seus dedos
e um caco de mim em seus olhos de vitral