Descabimento
Eu não queria partir, tudo menos partir…
Contudo estou de partida e não sei, a mala tão abarrotada…
Pego o coração nas mãos como
se apanha um passarinho, sou tão desajeitado,
Coloco-o numa gaiola vistosa, e penduro-a na janela
que dá para um mundo sem remédio
Quero falar alguma coisa, um verso de despedida,
um verbo, um cacófato…
Não há mais nada a dizer, um silêncio afiado corta os cômodos, que se tornaram tão
Incômodos nos últimos dias, até mesmo os lençóis
impregnados de carícias tão afáveis…
Até mesmo eles nos últimos dias me causavam aversão e espasmos,
ainda assim eles estão
na mala, uns sobre os outros sem trato de ferro e dobra,
e entre eles a benção de algumas
lágrimas que me driblaram a resistência…
Respiro esta poeira que se desanda iluminada pelo Sol,
não entendo, mas
gosto dela, gosto mais do que pensava…
talvez por não podê-la pôr na mala, e por isto
mesmo olho-a e sinto esta nostalgia sem tamanho,
esta comoção de menino contraindo
os dedos dos pés
Deixo o vaso de açucena na cabeceira da cama,
troco a água num rito apaixonado, a água de cheiro
escorrendo pela pia, os dedos febris , os respingos no
ladrilho amarelo, há uma dose de adeus em cada gesto…
que desce pela garganta inflamada de insensatez
Nunca pensei que um dia recolheria o varal,
que desataria os Nós das duas pontas,
E ainda não penso, desfaço-os como fiz as malas,
exilado de mim, com o coração numa gaiola,
o ar friccionando minhas pregas vocais, e tudo é um silvo,
que vai ricochetando nas paredes,
como se em cada choque acrescentasse uma voz nova,
uma pausa genial, uma dissonância espontânea e irreproduzível.
Quando foi que esta casa virou uma lavoura de memórias?
Arrasto-me sem respostas, na verdade arrasto-as
extravasando a mala que é pequena para tanta alma…
para tanta incandescência.
Olho ainda para a gaiola em balanço pendular na janela,
a portinhola escancarada, a prisão oca,
giro a maçaneta com o coração liberto
fechando a porta com uma força que não entendo bem.