Friday, November 17, 2006

 Descabimento

 

Eu não queria partir, tudo menos partir…


 

Contudo estou de partida e não sei, a mala tão abarrotada…

 

Pego o coração nas mãos como

 

 se apanha um passarinho, sou tão desajeitado,

 

Coloco-o numa gaiola vistosa, e penduro-a na janela

 

que dá para um mundo sem remédio

 

Quero falar alguma coisa, um verso de despedida,

 

 um verbo, um cacófato…

 

Não há mais nada a dizer, um silêncio afiado corta os cômodos, que se tornaram tão

 

Incômodos nos últimos dias, até mesmo os lençóis

 

 impregnados de carícias tão afáveis…

 

Até mesmo eles nos últimos dias me causavam aversão e espasmos,

 

ainda assim eles estão

 

na mala, uns sobre os outros sem trato de ferro e dobra,

 

e entre eles a benção de algumas

 

lágrimas que me driblaram a resistência…

 

Respiro esta poeira que se desanda iluminada pelo Sol,

 

 não entendo, mas

 

gosto dela, gosto mais do que pensava…

 

talvez  por não podê-la pôr na mala, e por isto

 

mesmo olho-a e sinto esta nostalgia sem tamanho,

 

 esta comoção de menino contraindo

 

os dedos dos pés

  

 Deixo o vaso de açucena na cabeceira da cama,

 

troco a água num rito apaixonado, a água de cheiro  

 

escorrendo pela pia,  os dedos febris , os respingos no

 

ladrilho amarelo, há uma dose de adeus em cada gesto…

 

 que desce pela garganta inflamada de insensatez

 

Nunca pensei que um dia recolheria o varal,

 

que desataria os Nós das duas pontas,

 

E ainda não penso, desfaço-os como fiz as malas,

 

 exilado de mim, com o coração numa gaiola,

 

o ar friccionando minhas pregas vocais, e tudo é um silvo,

 

que vai ricochetando nas paredes,

 

como se em cada choque acrescentasse uma voz nova,

 

uma pausa genial, uma dissonância espontânea e irreproduzível.

 

Quando foi que esta casa virou uma lavoura de memórias?

 

Arrasto-me sem respostas, na verdade arrasto-as

 

 extravasando a mala que é pequena para tanta alma…

 

para tanta incandescência.

 

Olho ainda para a gaiola em balanço pendular na janela,

 

a portinhola escancarada, a prisão oca,

 

 giro a maçaneta com o coração liberto

 

fechando a porta com uma força que não entendo bem.

  

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Friday, November 10, 2006

 Santa Ceia

 

A mesa é farta, vem se en-fartar

lava as mãos no entanto, retira das unhas o repasto da madrugada

esfrega com veemência, destrata a derme, expulsa esta crosta

desinfeta dos vincos as formigas e lesmas, emprega  neste labor o cansaço de teus músculos

retira as palmilhas desta tua delicadeza, espalma o peito do pé no chão

mergulhe-o em salmoura, acrescenta vinagre, desgasta a casca de besouro de teus calcanhares

emprega submisso a ofegância de teus pulmões nesta ordem

A mesa é farta, vem en-fartar-se

desobstrua as veias que passam entre a virília antes de mais nada,

pega a toalha das oblações, ofereça

teu umbigo neste altar, raspa a vertigem imantada em tua íris , emprega resignado as contrações de teu estômago

neste rito de asseio

alfazeme teus odores azedos,  desabotoa esta camisa de carrapichos que vieste bordando com tua loucura, 

apascenta os fios ásperos de teus cabelos, desata os nós que deste na garganta, estanca o verbo hemorrágico

emprega prostrado a saúde de teus joelhos nesta cura.

A mesa é farta, en-farte-se à vontade

 

 

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Tuesday, November 7, 2006

 

 Um gosto de cravo em minha boca

O caldo espesso do destempero

eferve minha língua em ácida saliva

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Sublimação 

 

é o vapor destas sensações

a água diáfana semeada no vento que tem me irritado as pupilas

 estes sons dissonantes e diminutos, estes sons de cozinha e louça,

de garfo roçando fundo de prato

e língua luxuriosa umedecendo os dedos.

 

são estes frutos colhidos ainda verdes em seu pomar, e esta vontade de comê-los com caretas,

com o vapor dos dentes em sua pele de tâmara, que exaurem meus calcanhares de menino

é esta fome imensa coberta por toalha xadrez amarrada na cintura… estes trapos com agulhas

costurados sobre o corpo encharcado.

 a canção amorfa que corrompe-me os olhos em doçura

e a espinha num ramo carregado de amoras

embebendo de sangue e vinho o pão de cada dia

 

é o vapor

 vapor das horas vazias, e os seus  versos no varal que teimo em vestir

tal meias furadas e encardidas de lá fora,

 e este gomo de mexirica que partilho do mesmo bago

é esta a liga que o leite dá a farinha,

ah estes versos que dão liga e pedem do pulso giros de ternura

como-os sem modos, com os dedos ávidos e impacientes

é esta ampulheta de areia ruiva e sonora

e este rompimento fibroso de casca de manga quando se descasca-a pensando em alguém

com fragrância de vapor de incenso,  que se precipita em chuva

amainando a sede da terra.

 

 

 

 

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Monday, November 6, 2006

 

 

Uma rassaca vulcânica aquece em cem graus

o cântaro de barro e cuspe de minhas deformidades

 

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Wednesday, October 18, 2006

 

 Amor, Amoras e Aromas

 

As migalhas que Maria traz no vestido

são oferendas

farelos do gozo coados na toalha de mesa

 Com água morna faz fios de algodão,

 tece-os alvos e longos 

deitando neles seus aromas

manga rosa, mamão papaia, serigüela, pequi…

tinge a língua com amoras, ao dizer: Lírio

Delira quando Crisântemo, vermelho, envolve-lhe a cintura

Comunga com Ele quando vestido de branco e cartola

Amarelecido assassina-O com fome de mulher

Enterra-O nos humores da terra, e cuida Dele como à Jesus menino

Escolhe arroz, joio e trigo,  cozinha ambos em panela de barro

recende à alho e rosa d’água

masca gengibre com hortelã, pinta-se de essências…

encharca-se de suores, acanha-se, rega Crisântemo com lágrimas…

Bate  o vestido com toda força que guardara, exausta e acre

 entrega-se sem oração.

Do amor puro e carnal dos aromas… migalhas espalha pelo caminho

para que ao renascer, Crisântemo devore suas essências

 

 

 

 

 

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Thursday, October 5, 2006

Palha e Fumo

 

Um robusto tijolo assentado próximo ao batente da porta, assoviou-me

 um silvo embriagado a pretexto de aprumar prosa.

puxei um banquinho de carpintaria, tirei do bolso o fumo,

e estiquei a palha com certa velhacaria

resmungou para si qualquer coisa difícil de entender, um melindre de dá pena,

 fitei-o de soslaio e aquietei o fumo no leito da palha

- O Senhor teria fogo

 Limpou a garganta com indiferença e rara sutileza

mantive-me cabisbaixo, lendo entre o fumo dormente e os frisos da palha

o eco de ininteligível resmungar

senti-o, como se tivesse-me montado aos ombros,

incapaz de outra reação sacudi-os

e ri com estertor…

O homenzarrão se aproximou, esgueirou-se entre  a gargalhada,

 apoiou-se em meu peito

respirou profunda e serenamente absorvendo o hálito do fumo adormecido.

meu coração batia em descompasso, meus pensamentos cruzaram o cerne da razão 

depostos num búzio…

aconchegou a boca a altura de meu coração,  e sem apressar-se

e como quem recolhe temperos compôs

um poema…

fez-me oboé de sua música, calma e robusta como um jatobá

o fumo rolou preguiçoso sobre a palha, acabou-se num vão entre tacos de madeira de lei.

A criatura girou nos calcanhares após ferir-me no tendão,

Olhei-o atravessar o limiar do batente… levando consigo a palha

entremeada em seus dedos

e um caco de mim em seus olhos de vitral

 

 

 

 

 

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Friday, September 29, 2006

Quar(ar)esma 

 

Gosto de sacudir os lençois

estendê-los no varal, deixá-los quarar

o sol se enroscando todo no imenso varal do mundo

 sempre apanho as lantejoulas que caem

guardo-as num pote de mel para colá-las mais tarde

vejo tudo pelos nós da costura.

Sou um moinho de giros lentos…

trituro grãos dia e noite, incansável, disseram-me que Deus tudo permeia

prucuro-O em cada grão, comprimo-os com mãos de avó, ou de criança em prece

aperto o tubo de pasta de dente até o fim. 

amo amiúde

não sei amar com vastidão, com filosofia, sapiência de doutor…

amo a coceira que não alcanço, e a porcelana das quais são feitos os santos de quermece

 amo a música singela e cabocla do abrir de porta

- Imagina! Disse-me o Capiroto.

Pois ele encontro em todo grão, tecemos prosa longa cascando amendoim

gostamos mesmo é de cascar amendoins juntos, o tempo passa que só vendo

- Imagina! Diz-me em cada casca que tira do amendoim, e ri-se o danado

Nos entendemos assim, ele na língua dele eu na minha

quando cascamos, ele casca, eu sacudo os lençois

e estendo-os como se pescasse o Sol 

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Tuesday, September 26, 2006

Em teu  olhar uma fita imaginária

Hoje quis construir gaiolas para os sentimentos
quis domá-los, vesti-los à rigor, colocar fitas em seus gestos embasbacados…
queria-os palpáveis, perfumados, um requinte só… in-ternados na ternura

um sapato luso para passos de balé… coluna em fila indiana… um broto na lapela

Hoje quis ler os sentimentos como se em vitrines
espanados ao desfio, besuntados de um riso anil, engomados a ferro e fogo
desejado como se caísse à perfeição.

Hoje quis lembrar de ti pelas fotografias
nos momentos congelados de tuas retinas o caminho do afeto
senti-me nu, uma noz descoberta… 

Hoje quis um salto mais ornamental, ensaiado infinitas vezes quando fecho os olhos
Se visse a que alturas chego,
capaz de colher das estrelas centelhas de universos ainda não nascidos
 para dentro entre o impulso e o vôo todo me viro

Teço no contra-tempo linho e cordões
amarro com três nós as sete pedrinhas colhidas
semeio vento e silêncio… e a enfeito como minha filha
você me olha, com olhos de erva-doce, e envolve meu coração em uma fita imaginária.

Quis o hoje displicentemente com o amor descontraído

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