Thursday, December 21, 2006

agridoce - acre-doce - parte-docê

aroma  amarelo, este visgo harmônico dos lábios,

o rodopio espiralado da saia, a digestão lenta dos ideais,

o sabor indissolúvel da memória, as fendas na pele como bagos de uva

o cio do silêncio, o espermã do verbo, o nascimento do erótico

o gozo vacuoso das estrelas, a angústia da avidez,

o pó torpe da pó-e-cia

os moinhos da sancha pança, os acalantos da loucura

e todas as flores que roubam da noite a volúpia

e todas as bocas que enfartam-se do corpo do poeta

 um gomo de fruto insosso

o paladar eflúvio do sonho

o arlequim nu

na quarta

feira em

cinzas.

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existo numa inexistência soberba


 

num sem vontade, num ócio do ofício,

 

embaçando vidros com meu bafo morno

 

alimentando-me 

 

das formas lânguidas, liquefeitas em praça pública

  

 

maldita caldeira, malditos preparos alquímicos com enxofre

 

estou louco e lúcido, luciférico nas manifestações todas

 

trago em mim requintes das seitas estetas,

 

pingo ouro fervido nas narinas

 

embebo meus nervos de óleo de linhaça…

 

e abro a boca largamente a dar passagem a voz alegórica

 

que bordei na pele e nas hastes do delírio…

   

 

sou o bamba dos galpões do sonho

 

mestre-sala da mais bela porta-estandarte…

 

mas este choro caiado deitado no braço dum bandolim

 

e os tamborins todos depostos nas sarjetas,

 

me põem entre aspas

 

sem ornamento, incógnito, insolúvel, sem pausas…

 

ausente à sustentação do silêncio

 

 

escorre alva a tinta de minha face

 

surreal e imodesta , atrativa como uma  semente de romã,

 

 marcada de raízes tensas que decalcam o pescoço,

 

envolvendo o pomo protuberante

 

que aquecido pelo canto eclode em memória apaixonada

   

 

Um pierrô se desmancha em cinzas na quarta-feira

 

Um outro pierrô namora a poesia do meu agora

 

do meu “acontecendo”

 

penso em assassiná-lo, mordido de ciúmes que fico

 

eu que flerto com o “será”, com cantilenas de mil promessas

 

 

 bicho de dentes danados este ciúme

 

morde o calcanhar da gente, aperta até curtir em fel

 

toda a fibra  

 

Se ao menos pudesse eu, ser inexiestente enquanto insisto,

 

parar de co-criar-me em tudo…

 

quero re-crear-me, recreio, momento de existência plena

 

 

Quiçá seja no jardim do recreio que namoram o pierrô e a poesia

 

e deste namoro nasça um novo fevereiro…  

 

esta permissibilidade me põem nos cascos…hahaah…

 

puto, puto, puto… este pierrô, este pierrô me cafetina…

 

pierrô miserável!… sou louco por ti, mesmo com esta cara mal

 

lavada de tinta velha, ainda pregada nos vãos da face.

 

 

Ainda assim, em cinzas desmanchamo-nos todos

 

haverá sempre uma corda arrebentada no violão

 

no momento do arpejo e seus extremos

 

e um som tornando-se silêncio em seu corpo 

 

 

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