Wednesday, October 18, 2006

 

 Amor, Amoras e Aromas

 

As migalhas que Maria traz no vestido

são oferendas

farelos do gozo coados na toalha de mesa

 Com água morna faz fios de algodão,

 tece-os alvos e longos 

deitando neles seus aromas

manga rosa, mamão papaia, serigüela, pequi…

tinge a língua com amoras, ao dizer: Lírio

Delira quando Crisântemo, vermelho, envolve-lhe a cintura

Comunga com Ele quando vestido de branco e cartola

Amarelecido assassina-O com fome de mulher

Enterra-O nos humores da terra, e cuida Dele como à Jesus menino

Escolhe arroz, joio e trigo,  cozinha ambos em panela de barro

recende à alho e rosa d’água

masca gengibre com hortelã, pinta-se de essências…

encharca-se de suores, acanha-se, rega Crisântemo com lágrimas…

Bate  o vestido com toda força que guardara, exausta e acre

 entrega-se sem oração.

Do amor puro e carnal dos aromas… migalhas espalha pelo caminho

para que ao renascer, Crisântemo devore suas essências

 

 

 

 

 

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Thursday, October 5, 2006

Palha e Fumo

 

Um robusto tijolo assentado próximo ao batente da porta, assoviou-me

 um silvo embriagado a pretexto de aprumar prosa.

puxei um banquinho de carpintaria, tirei do bolso o fumo,

e estiquei a palha com certa velhacaria

resmungou para si qualquer coisa difícil de entender, um melindre de dá pena,

 fitei-o de soslaio e aquietei o fumo no leito da palha

- O Senhor teria fogo

 Limpou a garganta com indiferença e rara sutileza

mantive-me cabisbaixo, lendo entre o fumo dormente e os frisos da palha

o eco de ininteligível resmungar

senti-o, como se tivesse-me montado aos ombros,

incapaz de outra reação sacudi-os

e ri com estertor…

O homenzarrão se aproximou, esgueirou-se entre  a gargalhada,

 apoiou-se em meu peito

respirou profunda e serenamente absorvendo o hálito do fumo adormecido.

meu coração batia em descompasso, meus pensamentos cruzaram o cerne da razão 

depostos num búzio…

aconchegou a boca a altura de meu coração,  e sem apressar-se

e como quem recolhe temperos compôs

um poema…

fez-me oboé de sua música, calma e robusta como um jatobá

o fumo rolou preguiçoso sobre a palha, acabou-se num vão entre tacos de madeira de lei.

A criatura girou nos calcanhares após ferir-me no tendão,

Olhei-o atravessar o limiar do batente… levando consigo a palha

entremeada em seus dedos

e um caco de mim em seus olhos de vitral

 

 

 

 

 

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