Quar(ar)esma
Gosto de sacudir os lençois
estendê-los no varal, deixá-los quarar
o sol se enroscando todo no imenso varal do mundo
sempre apanho as lantejoulas que caem
guardo-as num pote de mel para colá-las mais tarde
vejo tudo pelos nós da costura.
Sou um moinho de giros lentos…
trituro grãos dia e noite, incansável, disseram-me que Deus tudo permeia
prucuro-O em cada grão, comprimo-os com mãos de avó, ou de criança em prece
aperto o tubo de pasta de dente até o fim.
amo amiúde
não sei amar com vastidão, com filosofia, sapiência de doutor…
amo a coceira que não alcanço, e a porcelana das quais são feitos os santos de quermece
amo a música singela e cabocla do abrir de porta
- Imagina! Disse-me o Capiroto.
Pois ele encontro em todo grão, tecemos prosa longa cascando amendoim
gostamos mesmo é de cascar amendoins juntos, o tempo passa que só vendo
- Imagina! Diz-me em cada casca que tira do amendoim, e ri-se o danado
Nos entendemos assim, ele na língua dele eu na minha
quando cascamos, ele casca, eu sacudo os lençois
e estendo-os como se pescasse o Sol